O lançamento do livro “É pau, é pedra…” marca um importante capítulo na cena artística brasileira. A obra, que faz referência ao renomado compositor Tom Jobim, é dedicada ao trabalho de Sérgio Camargo (1930-1990), um dos principais representantes da arte contemporânea no Brasil e no mundo. A apresentação ocorreu nesta terça-feira (19) em Ipanema, no Rio de Janeiro.
A publicação está associada à exposição com o mesmo nome, curada por Marcello Dantas, que será realizada no Teatro Nacional Cláudio Santoro, em Brasília, de dezembro de 2025 a março de 2026. Aspásia Camargo, coautora do livro junto com Dantas, ressalta que o volume foi elaborado com rigor estético e discute como a linguagem escultórica de Camargo — caracterizada pela geometria e pelo uso simbólico do cilindro — estabelece uma conexão significativa com o modernismo presente na capital federal e na arquitetura de Oscar Niemeyer, grande amigo do artista.
O livro oferece uma visão abrangente sobre as múltiplas dimensões da obra de Sérgio Camargo, organizada em temas como “Relva”, “Corpo”, “Urbe”, “Xadrez” e “Jardim Suspenso”. Dantas descreve o artista como um “calígrafo de paus e pedras”, enfatizando sua habilidade em transformar materiais através de cortes precisos para “fazer nascer a luz”.
A publicação reafirma a relevância de Camargo como uma figura central da geração que moldou a cena criativa do Brasil moderno, integrando artes visuais, arquitetura e música. Um dos destaques é o ensaio intitulado “A ciência do olhar: de Leonardo da Vinci a Sergio Camargo”, escrito por Aspásia Camargo. Neste texto, ela estabelece comparações entre o ideal renascentista de Da Vinci e a abstração geométrica proposta por Camargo, discutindo sua crença na arte como uma “coisa mental”. O livro também explora sua formação intelectual em Paris sob a orientação de pensadores como Gaston Bachelard e Pierre Francastel, que influenciaram sua visão da escultura como um sistema reflexivo. Aspásia destaca: “Esta extraordinária figura merece estar no Panteão dos grandes artistas do mundo. Ele é um Pitágoras das artes plásticas.”
Além dos ensaios teóricos apresentados, a obra proporciona uma imersão no processo criativo do artista. Inclui uma seção dedicada ao seu “Ateliê” e uma cronologia detalhada acerca de sua vida e trajetória artística. O conteúdo ainda conta com uma entrevista histórica conduzida por Aspásia Camargo com Sérgio, onde ele compartilha suas influências pessoais e discute sua transição para o uso exclusivo do mármore de Carrara nos anos 1970, além de seus estudos sobre a luz e o vazio na matéria. A edição foi publicada pela Barleu Edições e apresenta um projeto gráfico assinado pela 19 Design, com textos traduzidos para o inglês para facilitar seu alcance internacional.
Com fotografias de Diego Bresani, Joana França e Lincoln Iff, assim como registros históricos provenientes de acervos pessoais, “É pau, é pedra…” vai além de um simples catálogo expositivo; trata-se de uma verdadeira “pedagogia do olhar” que convida os leitores a redescobrir a precisão técnica e a ética do corte na obra deste mestre das formas. A intenção é enriquecer o entendimento público sobre Sérgio Camargo e sua exposição.

