A trajetória da escrivã da Polícia Civil de Roraima, Gislayne Silva de Deus, que conseguiu prender o assassino de seu pai 25 anos após o crime, gerou discussões sobre justiça e memória durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2026. Essa narrativa encontra-se no livro Voz de Prisão, recém-publicado pela autora Luciana de Gnone, que foi convidada a participar do evento literário por meio de dois debates focados em temas como memória, justiça e direitos humanos na literatura.
O livro, lançado pela Editora Mapa Lab em maio deste ano, retrata a vida de Gislayne desde o homicídio de seu pai, que ocorreu quando ela tinha apenas 9 anos, até o momento em que ela se tornou responsável pela prisão do autor do crime, Raimundo Alves Gomes, 25 anos mais tarde. A prisão de Raimundo, que estava foragido desde 2016 e tinha 60 anos na época da captura, trouxe à tona a história da escrivã em todo o país em 2024.
A autora Luciana de Gnone se interessou pelo caso e decidiu investigar mais a fundo os efeitos do crime ocorrido em fevereiro de 1999. Para isso, contactou Gislayne e viajou a Boa Vista, Roraima, onde passou uma semana realizando pesquisas: visitou os locais relacionados ao crime, entrevistou amigos, familiares e policiais que participaram da investigação e teve acesso ao inquérito policial.
Essa imersão possibilitou que Luciana reconstruísse com precisão os eventos e transformasse essa realidade em uma narrativa ficcional no livro Voz de Prisão.
A escritora compartilhou suas experiências com um veículo de comunicação para discutir o processo criativo do livro e a interseção entre literatura e a busca por justiça. Segundo Luciana, muitas vezes a literatura consegue acessar aspectos que a justiça não alcança.
“Nos tribunais apuram-se os fatos; na literatura, examinamos as consequências para aqueles impactados por esse processo. Por isso, me atrai contar histórias onde a justiça é alcançada. Embora a ficção não altere os fatos históricos, nos permite imaginar desfechos alternativos. Isso mantém viva a esperança para aqueles que perderam a crença na possibilidade de justiça”, comenta a autora.
<spanEla também ressalta que sua abordagem ao escrever sobre justiça vai além da simples aplicação da lei; ela busca destacar as consequências da lentidão das instituições.
“É gratificante criar um espaço reflexivo onde o leitor compreende que a dignidade humana reside no direito de ser reconhecido além de um número processual”, afirma Luciana.
<spanSobre Voz de Prisão, Luciana enfatiza que um dos principais aprendizados durante a elaboração do livro foi perceber que a família enfrentou duas formas distintas de violência: o assassinato e a demora na Justiça.
“Durante meses dediquei-me à pesquisa e ao desenvolvimento da narrativa. Conversei extensivamente com Gislayne e seus parentes, além dos policiais envolvidos. Analisei o processo judicial e explorei os locais conectados à tragédia. Aos poucos compreendi que era uma história não apenas sobre um homicídio, mas também sobre as cicatrizes deixadas pela espera por justiça”, destaca Luciana.
A confiança depositada pela família de Gislayne na autora durante o desenvolvimento do livro foi algo profundamente impactante para Luciana. Ela observa que transformar uma experiência real de perda em uma obra literária requer um respeito profundo pela memória daqueles que já partiram. Simultaneamente, como se trata de uma obra fictícia, há liberdade para criar cenas e personagens que enriquecem a narrativa.
Para Luciana, equilibrar essa criatividade com um compromisso com a verdade foi seu maior desafio. “Desde o início busquei preservar a essência da jornada dessa família enquanto elaborava uma história capaz de tocar emocionalmente os leitores”, conclui.
Mulheres no gênero policial
Com sete livros anteriores focados em ficção policial protagonizada por mulheres, Luciana aponta seu interesse em contar boas histórias. As mulheres são vistas por ela como uma “mina inesgotável” desse tipo de narrativa. “O protagonismo feminino surgiu naturalmente porque me atraem mulheres complexas e contraditórias que podem liderar investigações ao invés de apenas participar delas”, explica.
“Historicamente, o gênero policial foi dominado por figuras masculinas. Felizmente isso está mudando. Eu gosto de escrever sobre mulheres que investigam ativamente, tomam decisões difíceis e lidam com dilemas éticos e emocionais sem perder sua humanidade”, acrescenta.
Ela complementa dizendo que suas protagonistas carregam medos e traumas mas continuam avançando frente aos desafios. “Talvez essa determinação seja o elo comum entre todas elas”, reflete.
Participação na Flip 2026
A presença de Luciana na Flip 2026 se dará através de duas mesas debatidas nos dias 23 (quinta-feira) e 25 (sábado). No dia 23 às 14h na Caixa de Histórias (Rua Dona Geralda, 140), ela participará da mesa intitulada “O desejo de justiça”, junto com Maria Fernanda Maglio e Tainá Muhringer sob mediação de Cláudia Lamego. Este encontro visa refletir sobre como a literatura pode contribuir para narrativas relacionadas à busca por justiça diante das diversas violências sociais.
No dia 25 às 15h ocorrerá outra discussão chamada “A memória inventa o que permanece”, na Casa LIBRE (Auditório da Praça Aberta – Areal). Junto com Eliseu Banori e Patrícia Farias mediado por Maria Teresa Salgado, Luciana abordará como as memórias individuais e coletivas influenciam o ato criativo literário preservando histórias importantes para não serem esquecidas.
Adaptação do livro para audiovisual
A força da narrativa contida em Voz de Prisão atraiu também o mundo audiovisual. A atriz Carol Castro revelou estar profundamente tocada pelo caso e procurou Gislayne para levar essa história à produtora Intro Pictures. Atualmente está sendo desenvolvida uma adaptação cinematográfica onde Carol atuará como produtora associada além de interpretar a protagonista; enquanto Luciana ficará encarregada da criação do roteiro.
“Espero que esta adaptação permita que Voz de Prisão chegue a pessoas que talvez nunca tenham conhecimento desta história através da literatura, promovendo reflexões sobre memória, impunidade e funcionamento das instituições sociais – especialmente sobre aqueles que buscam Justiça mesmo após profundas feridas”, expressa Luciana.
“Estou muito contente em fazer parte desse projeto como criadora e roteirista. Acompanhar desde o início me dá oportunidade para garantir que preserve-se tanto a essência original quanto as possibilidades narrativas oferecidas pelo cinema”, conclui ela.

