O livro mencionado por Jorge Messias durante sua sabatina no Senado não se trata de uma obra jurídica, mas sim de um romance profundo que explora temas como o poder, a consciência e os limites das decisões feitas sob intensa pressão. As Sandálias do Pescador, escrito pelo autor australiano Morris West, narra a trajetória de Kiril Lakota, um arcebispo ucraniano que, após anos na prisão na Sibéria, chega ao Vaticano e é eleito papa em um contexto marcado pela Guerra Fria e crises humanitárias ao redor do mundo.
A citação literária foi feita nesta quarta-feira (29) durante a sabatina de Jorge Messias na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, etapa crucial para sua indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A menção a uma história que discute as tensões entre moralidade individual e responsabilidade institucional conferiu um simbolismo especial à audiência.
O impacto do poder: Vaticano, Guerra Fria e crise global
Lançado originalmente em 1963 com o título The Shoes of the Fisherman, o romance aborda como uma instituição secular, blindada por rituais e distanciamento, deve agir frente a crises que ameaçam ultrapassar o controle dos líderes governamentais e diplomatas.
Kiril Lakota não chega ao poder como um burocrata moldado pelos corredores do Vaticano. Ele entra em Roma como um sobrevivente da repressão soviética, trazendo consigo a experiência amarga da repressão política e da fome. A morte do papa anterior dá início a um conclave repleto de intrigas internas e manobras políticas, culminando na inesperada escolha de um líder oriundo do Leste Europeu.
Após ser eleito, o novo papa deve lidar com um choque de realidades. O romance levanta uma questão desconfortável sobre a liderança religiosa: qual é o valor da autoridade moral se essa não se traduz em ações concretas diante da iminência de uma guerra nuclear e da miséria que aflige muitas populações?
Relações entre As Sandálias do Pescador e a cadeira no STF
Apesar de a obra de Morris West não ter relação direta com o Direito Constitucional, sua referência durante uma sabatina para o STF provoca reflexões sobre liderança em momentos críticos. O Supremo é onde as decisões individuais dos ministros têm consequências políticas, sociais e institucionais imediatas.
O dilema central enfrentado por Kiril Lakota reside no embate entre a prudência exigida pela função e a urgência das realidades externas ao poder. O papa fictício deve ponderar quando a cautela institucional deixa de ser uma proteção para se tornar uma omissão conivente.
Para alguém indicado ao STF — que tem a responsabilidade de arbitrar conflitos entre os Poderes da República e assegurar direitos fundamentais — o romance serve como uma alegoria contundente: ele revela o custo moral enfrentado por aqueles que ocupam posições de destaque e precisam decidir quando as esferas da lei, fé, política e realidade social entram em conflito direto.
Da literatura ao cinema
A força narrativa de As Sandálias do Pescador se manteve relevante através dos anos. Em 1968, o livro foi adaptado para o cinema em uma produção significativa, com Anthony Quinn interpretando Kiril Lakota e Laurence Olivier no elenco. Essa adaptação recebeu indicações ao Oscar nas categorias de melhor direção de arte e trilha sonora original.
A relevância contínua da obra nos debates contemporâneos — antecipando cenários geopolíticos reais que a Igreja Católica enfrentaria décadas depois com a eleição de João Paulo II — reflete sua habilidade em analisar as implicações das decisões tomadas por quem está no poder. Mais de sessenta anos após seu lançamento, o livro reafirma sua pertinência ao voltar à cena política brasileira através das palavras de um candidato à mais alta corte do país.

