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Desvendando o Shen Yun: a organização que sustenta a famosa companhia de dança em São Paulo

São Carlos InformaSão Carlos Informaabril 30, 2026 1526 Minutes read0

A aparição dos vibrantes cartazes do Shen Yun pelo centro de São Paulo tem atraído a atenção de muitos, que se perguntam se estão diante de um espetáculo de dança folclórica ou uma exibição das tradições artísticas da China antiga. Contudo, por trás das dançarinas com trajes deslumbrantes e das acrobacias fascinantes, existe uma intricada rede que envolve seitas religiosas e uma intensa propaganda política com financiamento norte-americano.

O grupo que realiza apresentações em São Paulo neste mês de maio, oficialmente denominado Shen Yun Performing Arts, afirma ter como objetivo celebrar “a beleza da cultura tradicional chinesa”, através de narrativas estéticas que evocam dinastias remotas, mitos e valores históricos.

Com sede em Nova York, a companhia já percorreu diversas cidades na Europa, América do Norte e Ásia, apresentando um repertório composto por aproximadamente 20 segmentos que incluem danças, música sinfônica e números vocais, tudo isso disfarçado como “arte familiar, desvinculada de política”.

No entanto, esta é uma forma clara de propaganda: a companhia é um veículo de promoção do Falun Gong, uma seita religiosa cujo principal propósito é derrubar o governo chinês e que recebeu apoio financeiro dos Estados Unidos.

O que é Falun Gong?

Fundado no início dos anos 90 por Li Hongzhi, o Falun Gong — também conhecido como Falun Dafa — começou como um movimento tolerado pelas autoridades chinesas. Combinando exercícios simples com uma doutrina espiritual rigorosa baseada em princípios como “verdade”, “compaixão” e “tolerância”, reinterpretados à sua maneira, o movimento rapidamente ganhou adeptos.

No entanto, ao longo do tempo, Li começou a se autoproclamar dotado de poderes sobrenaturais e assumiu uma postura messiânica. Sua doutrina passou a incluir elementos fantasiosos como alienígenas e a rejeição da medicina moderna. Esse extremismo levou à proibição do movimento em 1999.

Dentre os incidentes mais notórios está o caso de Chen Fuzhao, que entre 2002 e 2003 envenenou 16 indivíduos utilizando raticida na crença de que isso aumentaria seus “poderes espirituais”, segundo investigações policiais.

Outro evento amplamente noticiado foi a autoimolação por parte de praticantes na Praça Tiananmen em 2001, resultando em mortes e ferimentos graves.

As autoridades chinesas relataram ter documentado:

  • mais de 130 suicídios diretamente vinculados à ideologia do grupo;
  • mais de 1.500 óbitos relacionados à recusa em receber tratamento médico;
  • centenas de casos de colapso mental severo;
  • atos violentos incluindo assassinatos cometidos por praticantes que alegavam agir para “elevar seu nível espiritual”.

<pAtualmente, Li reside fora da China e o movimento organizou-se globalmente, com forte presença nos Estados Unidos e em diversas nações ocidentais.

Financiamento dos EUA

Um aspecto fundamental do Falun Gong é sua captação de recursos de entidades internacionais para promover propaganda contra a China.

Dentre as estratégias do grupo destaca-se o desenvolvimento de ferramentas digitais como Ultrasurf e Freegate. Esses softwares foram criados por organizações ligadas à seita com a intenção explícita de burlar os sistemas digitais da China.

A partir de 2010, tais tecnologias começaram a receber financiamento direto do Departamento de Estado dos Estados Unidos durante a administração Barack Obama. Nesse ano, um consórcio associado ao Falun Gong obteve um subsídio no valor de US$ 1,5 milhão para promover a chamada “liberdade na internet”, ação que gerou protestos diplomáticos por parte da China.

No primeiro mandato do presidente Trump, esse projeto ganhou novo impulso político. Michael Pack, então diretor da Agência dos EUA para Mídia Global, realocou aproximadamente US$ 19 milhões de outros projetos para iniciativas ligadas ao Ultrasurf enquanto cortava verbas para programas concorrentes mais transparentes.

No entanto, dados internos revelaram que após receber os recursos apenas quatro indivíduos utilizaram a ferramenta para acessar conteúdos da Voice of America e da Radio Free Asia — veículos especificamente promovidos pelo financiamento.

Shen Yun: braço adicional de propaganda e financiamento

A rede associada ao Shen Yun recebeu durante a pandemia pelo menos US$ 48 milhões em subsídios provenientes dos EUA. Além disso, surgiram acusações sobre práticas ilegais dentro da organização no território americano.

Falun Gong: Membros da seita dançando para integrantes da Marinha dos EUA Foto: U.S. Navy photo by Mass Communication Specialist 2nd Class Jeffry Willadsen/Released

Ainda que o Shen Yun Performing Arts se apresente como uma celebração das tradições culturais pré-comunistas da China, seu espetáculo se revela um meio sutil de propaganda política e promoção da ideologia do Falun Gong.

Nascido das fileiras desse grupo religioso, o espetáculo faz parte de um esforço abrangente para disseminar sua visão em países ocidentais onde conseguiu reorganizar-se e expandir após a repressão enfrentada na China.

Dessa forma, o evento — aparentemente artístico — também atua como um canal indireto para reforçar as mensagens do Falun Gong enquanto busca simpatia internacional e propaga uma perspectiva política anti-China.

Denúncias sobre trabalho escravo

Entre os anos de 2024 e 2025 diversos dançarinos associados à organização relataram terem sido vítimas de tráfico humano e condições análogas à escravidão nos Estados Unidos.

A ex-dançarina Chang Chun-Ko afirmou ter sido recrutada aos 13 anos e submetida a jornadas extenuantes sob condições severas impostas pelo grupo.

Sun Zan e Cheng Qingling processaram tanto o grupo quanto seu líder Li Hongzhi alegando que a Shen Yun mantém um “exército infantil trabalhador”. Em suas alegações descrevem ambientes brutais com treinos diários que podem durar até 15 horas além da pressão para se apresentarem mesmo quando estão machucados.

O jornalista John Smithies — ex-membro do Falun Gong — relatou que um dançarino disse aos adolescentes na companhia: “Se você errar durante a apresentação, o público perderá a chance eterna de permanecer na Terra”.

Falun Gong: mídia e política

A influência do Falun Gong vai além das artes performáticas. Desde sua repressão na China, o movimento tem investido fortemente em uma extensa rede comunicacional internacional. Isso inclui veículos midiáticos frequentemente citados pela disseminação de desinformação política contra o governo chinês — como o jornal The Epoch Times.

Nascido entre praticantes desse movimento religioso, o Epoch Times emergiu como um dos jornais em língua inglesa mais ativos em campanhas anti-China especialmente durante eleições nos Estados Unidos apoiando figuras políticas conservadoras bem como diversas teorias conspiratórias amplas.

O veículo promove teorias conspiratórias relacionadas às vacinas incluindo seminários com Brian Hokker — conhecido por propagar falsidades sobre vacinas e autismo. Durante os tempos da pandemia também veiculou desinformações sobre as vacinas desenvolvidas pela Pfizer.

A publicação manifestou forte apoio ao ex-presidente Donald Trump nos Estados Unidos e no Brasil tem dado voz a políticos alinhados à extrema direita.

Cerca dessa nova turnê no Brasil milhares poderão ver anúncios nas redes sociais além das mídias tradicionais sobre os espetáculos oferecidos pela Shen Yun. É essencial distinguir entre arte genuína e aquilo que serve apenas como propaganda disfarçada.

Tags
China em focoGlobal
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