A cinebiografia ‘Dark Horse’ se apresenta como um épico sobre a trajetória de Jair Bolsonaro e a campanha presidencial de 2018, mas rapidamente se tornou o centro de um dos maiores escândalos financeiros envolvendo a família do ex-presidente.
Mais do que uma simples obra de promoção política, o filme se transformou em um ponto crucial que conecta o bolsonarismo ao Banco Master, instituição responsável por um colossal rombo no sistema financeiro do Brasil.
Enquanto setores da extrema direita tentam empregar a linguagem do cinema para reabilitar a imagem de Bolsonaro tanto no Brasil quanto internacionalmente, documentos revelam que a produção do filme é muito mais complexa.
O Enredo do Escândalo: A Conexão Flávio-Vorcaro
A investigação financeira relacionada a ‘Dark Horse’ expõe uma inquietante ligação entre o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. Documentos e gravações divulgados por um veículo de comunicação revelam que Flávio negociou diretamente com Vorcaro um investimento de US$ 24 milhões — aproximadamente R$ 134 milhões na cotação da época.
A interação entre eles, descrita em mensagens como uma relação de ‘irmão para irmão’, foi além de simples diálogos formais. Entre fevereiro e maio de 2025, R$ 61 milhões foram enviados para o fundo Havengate, baseado no Texas, vinculado a aliados de Eduardo Bolsonaro.
A prisão de Vorcaro em novembro de 2025 por fraudes relacionadas ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), seguida pela liquidação do Banco Master pelo Banco Central, revelou as fragilidades desse esquema. As tentativas de Flávio em justificar sua proximidade com Vorcaro como uma busca por ‘apoio privado’ contradizem os áudios que mostram o senador atuando como um intermediário direto, oferecendo até jantares exclusivos com o ator Jim Caviezel para manter Vorcaro interessado. Jair Bolsonaro também foi visto conversando com seu filho após o escândalo, discutindo os próximos passos da película.
A Produção sob Suspeita: Violações no Set
Enquanto os custos exorbitantes — que podem ultrapassar cinco vezes o valor de produções anteriores da mesma equipe — eram discutidos nos bastidores, o ambiente de filmagem em São Paulo se transformou em um local marcado por abusos. Relatos de figurantes e profissionais envolvidos apontam para condições precárias. Denúncias incluem agressões realizadas por seguranças, atrasos nos pagamentos, desrespeito a convenções coletivas e até fornecimento de alimentos impróprios para consumo. A disparidade entre as quantias negociadas com Vorcaro e a situação deplorável enfrentada pelos trabalhadores reflete a visão da extrema direita sobre dignidade no trabalho.
O ‘Pangaré’ de Hollywood: Estética e Amadorismo
No quesito técnico, ‘Dark Horse’ tem sido alvo de piadas nas redes sociais. O teaser lançado em 2025 viralizou não pelo conteúdo apresentado, mas pelos erros grotescos, levando à ridicularização devido a falhas técnicas. A caracterização do ator Jim Caviezel como Bolsonaro foi comparada ao personagem ‘Beiçola’, da série ‘A Grande Família’, gerando memes que associam o visual do filme a esquetes humorísticas.
O roteiro elaborado pelo deputado Mario Frias apresenta uma interpretação distorcida dos fatos, incluindo cenas fictícias onde Bolsonaro enfrenta cartéis na Amazônia.
Esse amadorismo técnico aliado ao orçamento inflacionado sugere que os investimentos não visavam à qualidade artística, mas sim à movimentação financeira disfarçada sob o pretenso projeto cinematográfico.
O Elenco da Extrema Direita
A escolha de Jim Caviezel para protagonizar a obra não foi casual. Reconhecido por seu papel em ‘A Paixão de Cristo’ e sua afinidade com teorias conspiratórias como QAnon, Caviezel desempenha um papel significativo na rede internacional da extrema direita.
O sucesso do filme ‘Som da Liberdade’ serviu como inspiração para os bolsonaristas, que pretendem transformar Bolsonaro em um ícone conservador global, alinhado a figuras como Donald Trump.
O Rastro do Dinheiro Público
A produtora Go Up Entertainment está no centro das investigações sobre possíveis irregularidades no uso de recursos públicos. A empresa recebeu R$ 108 milhões da prefeitura paulistana durante a gestão Ricardo Nunes para implementar Wi-Fi em áreas carentes.
A rede empresarial da produtora executiva Karina Gama está interligada a emendas Pix propostas por parlamentares do PL e projetos obscuros voltados ao letramento digital.
Adicionalmente, Mario Frias destinou R$ 2 milhões em emendas à produtora responsável pelo filme, levantando questionamentos sobre o destino desse dinheiro público.
Diante das acusações, a Go Up divulgou uma nota negando qualquer financiamento oriundo de Vorcaro e afirmando que os recursos foram obtidos através de investidores privados sob acordos confidenciais. Por sua parte, Flávio Bolsonaro mantém-se firme na linha adotada pelo pai ao negar irregularidades e clamar pela criação de uma CPI para investigar o Banco Master — estratégia interpretada como uma distração para desviar as atenções sobre sua própria participação nas negociações.

