A pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enfrenta um isolamento político crescente, intensificado por uma crise familiar que ele não consegue controlar. Na última quinta-feira (9), o filho mais velho do ex-presidente fez um apelo público por apoio da madrasta, Michelle Bolsonaro, poucos dias após ter sido criticado por ela nas redes sociais. Com sua candidatura sem progresso e sem o suporte dos eleitores mais leais ao bolsonarismo, Flávio decidiu se submeter ao “tempo” de Michelle.
“Estou sempre aberto ao diálogo e esperando o momento que ela considerar adequado para nos apoiar na campanha. Tenho certeza de que a Michelle compartilha dos mesmos pensamentos que eu”, afirmou Flávio, demonstrando estar sob pressão devido à influência política da madrasta. Ele acrescentou: “É essencial que todos estejam unidos para enfrentar o verdadeiro inimigo do Brasil, que é o atual governo”, utilizando o discurso habitual de união contra o PT e Lula como forma de disfarçar sua situação embaraçosa.
O início do conflito: aliança com Ciro Gomes
A turbulência na pré-candidatura de Flávio teve origem em disputas internas no Ceará. Juntamente com o deputado federal André Fernandes (PL-CE), Flávio ignorou as bases ideológicas locais e firmou um polêmico acordo com Ciro Gomes (PSDB), ex-ministro da Fazenda, buscando fortalecer sua posição eleitoral no estado. Como parte desse arranjo, a família deixou de lado a deputada federal Priscila Costa (PL-CE), escolhida por Michelle para concorrer ao Senado, em favor de Alcides Fernandes.
Michelle já havia manifestado sua desaprovação à aproximação com Ciro, considerando-o um crítico histórico de Jair Bolsonaro. Em suas redes sociais, expôs detalhes da disputa familiar e desautorizou seu enteado. Ela revelou ter sido maltratada em uma ligação após confrontar Flávio sobre a aliança no Ceará.
“Ele foi bastante agressivo e desrespeitoso comigo ao telefone, quando eu não tinha feito nada que pudesse provocá-lo. Ele me disse que seria melhor eu me afastar das decisões do partido e afirmou que eu era nova nesse meio político. Diante dessa humilhação, concordei e percebi que meu apoio não era desejado ou considerado relevante”, disparou Michelle.
Flávio em apuros e Michelle dominante no PL
As declarações de Michelle tiveram um impacto significativo nas aspirações presidenciais de Flávio. Reconhecendo a perda de apoio entre os conservadores, que veem na ex-primeira-dama a legítima sucessora do capital político do ex-presidente em prisão domiciliar, o senador rapidamente recuou. No mesmo dia, fez uma declaração se retratando: “Em nenhum momento ofendi ou tive intenção de ofender Michelle. Se isso ocorreu, peço desculpas novamente”.
A resposta de Michelle ao recuo foi decisiva. Apenas cinco dias após a troca pública de críticas, ela se reuniu com Valdemar Costa Neto, presidente do partido, e apresentou sua renúncia irrevogável à presidência do PL Mulher. Oficialmente alegou querer dedicar-se aos cuidados de Jair Bolsonaro e da filha; na prática, seu gesto isolou ainda mais Flávio.
A relevância política de Michelle ficou clara quando Valdemar Costa Neto declarou publicamente que ninguém no PL estaria “à altura” para substituí-la, cogitando até mesmo acabar com o cargo nacional do núcleo feminino caso ela decidisse retornar.
Ao buscar agora a colaboração de Michelle em sua campanha, Flávio Bolsonaro revela a fragilidade da sua pré-candidatura. Dependente da aprovação e popularidade daquela que ele próprio tentou menosprezar anteriormente, o senador se curva publicamente em uma tentativa desesperada de salvar uma campanha que já inicia com dificuldades antes mesmo do lançamento oficial.

