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O alarmismo econômico: a aliança entre Flávio Bolsonaro, a Globo e a imprensa liberal contra Lula

São Carlos InformaSão Carlos Informaagosto 13, 2026 236 Minutes read0

No editorial intitulado “Convocação”, veiculado no jornal O Globo em 2 de abril de 1989, Roberto Marinho direcionava um apelo aos líderes do PMDB e PFL — atualmente conhecidos como MDB e União Brasil — para que unissem forças em torno de uma candidatura consensual. Ele argumentava que era necessário apresentar uma alternativa ao que descreveu como um projeto caudilhesco-populista e outro meramente sectário, clamando por um levante em “defesa dos nossos valores”, numa clara referência aos candidatos progressistas da época, Leonel Brizola (PDT) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Referindo-se ao sindicalista que “invadia fábricas”, Marinho ainda criticava a Central Única dos Trabalhadores (CUT), afirmando que sua “arrogância e empáfia” impediam qualquer diálogo que pudesse levar ao controle da inflação e ao aumento salarial.

Esse editorial marcou o início de uma longa colaboração entre a mídia liberal e o projeto neoliberal, representado por figuras da Faria Lima, partidos do Centrão e mais recentemente pela ultradireita. Essa aliança tem sido utilizada para reavivar o terrorismo econômico contra Lula durante todas as suas sete campanhas eleitorais, enquanto ele se prepara para buscar um quarto mandato na presidência em 2026.

Quase quatro décadas depois, com a tentativa fracassada de promover uma alternativa mais moderada por meio do militar Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos), a mídia liberal retoma sua parceria com o bolsonarismo, trazendo de volta “especialistas” da era tucana como Armínio Fraga, Pérsio Arida e José Roberto Mendonça de Barros, intensificando novamente o terrorismo econômico contra Lula.

Fernando Henrique Cardoso e Roberto Marinho, da Globo em 1999 (Patrícia Santos/Folhapress. Digital)

Em um editorial publicado na última quinta-feira (12), O Globo se uniu à Folha e ao Estadão para afirmar que a “bondade eleitoreira de Lula resulta em má gestão da dívida”.

O economista José Luis da Costa Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Macroeconomia Monetária”, comentou sobre o temor que muitos têm em relação ao possível quarto mandato de Lula. “O receio é que ele possa implementar mudanças na política macroeconômica que atualmente ainda se encontra sob controle deles”, explicou à Fórum.

Oreiro também mencionou a adesão da mídia ao que considera um “pacote de maldades” promovido por Paulo Guedes, que estava pronto para ser executado no final do governo Jair Bolsonaro e está sendo retomado por Daniela Consentino Marques, sua ex-colaboradora.

“Esse pacote estava pronto para ser implantado no final do governo Bolsonaro. Criaram um termo para justificar a necessidade de eliminar a ‘expansão autônoma dos gastos do governo’, referindo-se às indexações que garantem reajustes vinculados ao salário mínimo para aposentadorias e benefícios como o BPC. Esse plano seria colocado em prática caso Bolsonaro fosse reeleito”, revelou Oreiro, que integrou a equipe econômica de Fernando Haddad durante a transição para o governo Lula em 2022.

Brasil vai quebrar com Lula?

Gustavo Pessoa, doutor em Finanças e professor na Fundação Getúlio Vargas (FGV), desmistifica as alegações sobre uma possível falência da economia brasileira durante um eventual quarto mandato de Lula, frequentemente propagadas pelo gabinete do ódio de Flávio Bolsonaro (PL) junto à mídia liberal.

“Atualmente, não há evidências que indiquem seriamente que o Brasil esteja à beira de uma quebra. O crescimento foi de 2,3% em 2025, o desemprego está próximo das mínimas históricas, temos mais de US$ 360 bilhões em reservas internacionais e a maior parte da dívida pública é denominada em reais. Isso dista muito do retrato de uma economia insolvente”, explica com base em dados concretos.

Segundo Pessoa, a retórica alarmista associada ao crescimento eleitoral de Lula ou candidatos progressistas funciona como uma ferramenta de “disciplina política”.

“A mensagem transmitida é clara: qualquer governo que busque aumentar salários, expandir proteção social ou cobrar mais dos mais ricos enfrentará represálias do mercado. E esse ‘mercado’ não é uma entidade neutra; é composto por instituições e indivíduos com interesses financeiros específicos. Quando certos agentes clamam por juros altos ou cortes nos gastos sociais, não estão falando sem interesses próprios”, afirma.

Pessoa também critica o discurso sobre cortes orçamentários disseminado pelos especialistas da mídia liberal aliados à ultradireita bolsonarista.

“Há uma grande disparidade no tratamento das despesas públicas. Recursos destinados aos mais pobres são rapidamente rotulados como gastos irresponsáveis ou populistas. Em contrapartida, subsídios a setores abastados são considerados essenciais ou custos inevitáveis. Essa narrativa ressurge nas eleições porque está em jogo quem arcará com os custos do Estado: os trabalhadores ou aqueles que detêm privilégios tributários”, diz.

Oreiro complementa afirmando categoricamente que “não há chance alguma do Brasil quebrar” e faz uma comparação com o ultraliberalismo imposto à Argentina por Javier Milei — figura admirada pela ultradireita presente na convenção de Flávio Bolsonaro.

“A dívida brasileira é toda emitida em reais — moeda controlada pelo governo — diferentemente da Argentina. Além disso, a relação entre dívida pública e PIB na Argentina é significativamente maior do que no Brasil. E não faz sentido Armínio Fraga elogiar Milei”, critica Oreiro sobre o ex-presidente do Banco Central no governo FHC.

Ricardo Berzoini, ex-ministro da Previdência Social e Trabalho durante os governos Lula e das Comunicações no governo Dilma Rousseff, enfatiza diretamente:

“A mídia comercial nunca teve apreço pelo Lula. Patrocinada por bancos e instituições financeiras desde os anos 90, ela adota um discurso fiscal extremamente rígido. Aplaude especulações financeiras rápidas enquanto ignora os riscos associados às operações bancárias arriscadas”, observa Berzoini.

Maura Montella, professora de Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora do livro “Era só para envolver o Lula na Zelotes”, também traz à tona questões relacionadas ao gênero no debate sobre as políticas sociais implementadas por Lula voltadas às mulheres.

“Historicamente, as famílias eram lideradas pelos homens. Hoje são as mulheres quem prevalecem nessas estruturas familiares. Elas dependem desses programas sociais para garantir acesso à educação superior para seus filhos. Esses estudantes se tornam médicos ou engenheiros capazes de contribuir com a sociedade”, explica Montella sobre como essa dinâmica enfrenta resistência entre grupos conservadores.

O Brasil real versus a visão financeira

Em 19 de dezembro de 1989, dois dias após o segundo turno das eleições presidenciais onde manipulou a transmissão do último debate para favorecer Fernando Collor de Mello através de seu império midiático — incluindo concessões públicas — Roberto Marinho enviou uma carta negando exercer qualquer poder político hegemônico sobre Lula.

Na missiva dizia: “A orientação dada aos veículos sob minha direção visa exclusivamente defender aquilo que considero serem os verdadeiros interesses do País”. Esta declaração revela não apenas as táticas intimidatórias utilizadas mas também levanta questões sobre quem realmente define esses “interesses reais” e quem deles se beneficia efetivamente — um enredo ainda presente nas narrativas disseminadas por Flávio Bolsonaro e apoiadores cuja meta parece ser silenciar as vozes da maioria populacional enquanto favorecem projetos individuais voltados ao enriquecimento pessoal.

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economiaeleições 2026LulaneoliberalismoO Globo
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