O disco Construção, considerado uma obra-prima da música brasileira, quase não chegou ao público devido a um grave erro técnico em sua produção. Lançado em 1971 por Chico Buarque, o álbum enfrentou um percalço significativo durante a fase de mixagem, que quase comprometeu sua integridade.
Conforme relatos de quem estava presente, o problema aconteceu no estúdio da gravadora Philips. Um assistente, ao manusear uma mesa de som de quatro canais — tecnologia ainda nova na época —, cometeu um erro ao acionar um botão e deletou totalmente a gravação da orquestra, sob a batuta do maestro Rogério Duprat.
Diante da situação crítica, o diretor de produção Roberto Menescal tomou uma atitude urgente para salvaguardar o projeto. Sem informar a direção da gravadora, ele reestruturou o orçamento interno e redirecionou recursos que estavam destinados a outros artistas, como Elis Regina, para realizar a regravação integral da orquestra. Essa manobra foi realizada em total sigilo.
Nem Chico ficou sabendo
<pEm declarações posteriores, Menescal revelou que nem mesmo Chico Buarque teve conhecimento do incidente na época.
O álbum foi produzido após o retorno do compositor de um período de autoexílio na Itália e foi lançado em meio à ditadura militar no Brasil, tornando-se uma obra com forte conteúdo crítico. As letras apresentavam denúncias sociais e políticas frequentemente disfarçadas em estruturas poéticas elaboradas e arranjos intricados.
A relação do álbum com a censura foi repleta de episódios contraditórios:
- Aprovação surpreendente: A faixa-título “Construção” foi liberada sem cortes, apesar de seu conteúdo crítico. Há indícios de que a gravadora tenha até apostado na possibilidade de uma proibição para gerar impacto, mas isso não se concretizou.
- Censura em “Samba de Orly”: A canção, composta junto com Toquinho e Vinicius de Moraes, enfrentou restrições e teve partes modificadas por tocar diretamente no tema do exílio.
- Mudanças em “Cordão”: Os censores consideraram alguns versos subversivos, especialmente “Nas grades do coração”, exigindo alterações para que a música fosse liberada.
- Caso “Apesar de Você”: Embora não faça parte do álbum, essa canção lançada anteriormente passou pela censura inicial, mas acabou sendo retirada quando o regime identificou suas críticas implícitas ao governo de Emílio Garrastazu Médici.
Após o lançamento de “Construção”, Chico Buarque passou a ser vigiado mais rigorosamente pelos órgãos repressivos. Essa vigilância levou o artista a adotar nos anos seguintes o pseudônimo Julinho da Adelaide como forma de contornar a censura e continuar sua produção musical.
Ainda que enfrentasse dificuldades tanto técnicas quanto políticas, o álbum se firmou como um dos mais relevantes na história da música brasileira, celebrado por sua inovação estética e pela profundidade das críticas sociais presentes em suas letras.

