Documentário ‘À Sombra do Sol’ Explora a Astronomia nas Culturas Indígenas

Após sua estreia na Hot Docs, importante festival de documentários realizado em Toronto, Canadá, o filme À Sombra do Sol será exibido pela primeira vez no Brasil durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Com a direção de Isadora Canela e Hugo Haddad, a produção aborda a intersecção entre astronomia e conhecimentos indígenas, destacando a figura do professor guarani Germano Afonso, um dos principais especialistas em astronomia indígena no país. O longa também apresenta outras personalidades significativas, incluindo um pajé centenário do Sul do Brasil e um líder da etnia Dessano na Amazônia. A cinematografia é assinada por Alberto Alvares, um cineasta pertencente à etnia Guarani Nhandewa, além de Carlos Ramon.

Na criação deste documentário, os realizadores decidiram não seguir um roteiro rígido, priorizando a escuta atenta das culturas representadas. “Não conseguiríamos compor uma narrativa tão rica e viva sem considerar o contexto em que estávamos filmando. Cada região exigia uma abordagem única. No Sul, o ritmo era ditado pelo pajé centenário, que se expressa lentamente, com pausas que aprendemos a respeitar. Na Amazônia, com o povo Dessano, as estrelas são vistas de forma distinta, entrelaçadas com o rio e as florestas e suas histórias ancestrais”, afirmam os diretores em uma entrevista coletiva. “Percebemos que não era viável chegar com uma câmera pronta e um planejamento fixo.”

O documentário propõe que a astronomia indígena e a ciência ocidental podem coexistir como formas igualmente válidas de conhecimento. “Não acreditamos que a astronomia indígena precise da validação da ciência ocidental. O nosso desejo é o oposto: que a ciência ocidental aprenda com os saberes indígenas e integre esse conhecimento ao que já possui”, explicam os cineastas. “O personagem principal de À Sombra do Sol, um astrônomo guarani, nunca defendeu que apenas uma forma de saber fosse válida; isso foi uma das lições mais valiosas que aprendemos com ele. Ele transita naturalmente entre esses dois mundos, utilizando telescópios enquanto também reconhece as constelações ensinadas pelos mais velhos, sem ver contradições nisso.”

A abordagem dos cineastas se baseia na escuta ativa, permitindo que os personagens conduzam a narrativa de À Sombra do Sol. “No filme, não buscamos apresentar o conhecimento indígena como algo que precisa ser validado pela ciência acadêmica”, destacam eles. “Preferimos dar voz ao saber indígena através das falas do pajé e do líder Dessano, além dos cânticos e histórias transmitidas ao longo das gerações. Esse conhecimento tem guiado práticas como agricultura, pesca e rituais por milhares de anos. O que precisamos é realmente parar para ouvir.”

Os diretores comentam sobre as diferentes reações após as estreias em Toronto e São Paulo. “Levamos até lá um fragmento da ciência ancestral brasileira: a astronomia indígena. Sentimos que o público reagiu com reconhecimento: cada cultura tem sua própria maneira de interpretar as estrelas, mas todas contemplam o mesmo céu”, explicam. “Muitas pessoas ficam surpresas ao descobrir no filme que há uma rica tradição astronômica nativa presente em nosso território há milênios e se questionam por que nunca ouviram falar dela antes. Em Toronto, despertou curiosidade; já no Brasil causa também um certo desconforto – algo necessário”, finalizam.

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