Iniciou-se na manhã desta quarta-feira (29) a demolição do Grêmio Recreativo Cruz da Esperança, um dos mais antigos centros de convivência da comunidade Casa Verde, situada na Zona Norte de São Paulo. O local foi cercado por agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM), que supervisionaram a execução da reintegração de posse determinada pela Justiça.
Com essa demolição, encerra-se uma trajetória de 68 anos do grêmio, encerrando também uma prolongada batalha judicial entre a associação e a Prefeitura de São Paulo sobre a utilização da área.
A área em questão pertence à União e era administrada pelo Comando da Aeronáutica há várias décadas, devido à sua proximidade com o Aeroporto Campo de Marte. Segundo registros históricos do clube e depoimentos de moradores, o espaço começou a ser utilizado no final dos anos 1950, após um acordo informal entre a Aeronáutica, taxistas e residentes locais para a prática de futebol de várzea.
Em 2022, a área foi transferida para o município como parte do acerto de quitação de uma dívida entre a União e a Prefeitura referente a terrenos na região do Campo de Marte. Em seguida, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) destinou o espaço à iniciativa privada para a criação do futuro Parque Municipal Campo de Marte, com sua administração passando ao Consórcio Campo de Marte, liderado pela empresa Progen.
Críticas da comunidade ao despejo
Integrantes do Cruz da Esperança contestaram a decisão de desocupação, pleiteando a permanência do espaço. Fundado em 1958, o grêmio é reconhecido por seus frequentadores como um importante local para a preservação da cultura afro-brasileira e negra na cidade, além de promover atividades esportivas, rodas de samba, capoeira e eventos relacionados ao candomblé.
Recentemente, moradores, artistas e figuras políticas realizaram mobilizações contra a demolição. O presidente da associação, Antonio de Jesus Marques, conhecido como Toninho, expressou gratidão pelo apoio recebido nas redes sociais, mas lamentou que os esforços não foram suficientes para mudar a decisão da prefeitura.
Na noite anterior ao início das demolições, ou seja, na terça-feira (28), o espaço promoveu uma última edição gratuita do Samba do Cruz, atraindo centenas de pessoas para um evento simbólico de despedida. A vereadora Luna Zarattini (PT-SP) esteve presente no ato.
Ponto de vista da Prefeitura
A Prefeitura paulistana declarou em nota que a reintegração de posse é resultado de uma decisão judicial e informou que manteve diálogo com todas as entidades que utilizavam o espaço.
Segundo informações da administração municipal, apenas o Cruz da Esperança não aceitou os acordos propostos para desocupação voluntária e ignorou as notificações enviadas para desocupar o terreno.
Além disso, foi afirmado que o evento Samba do Cruz ocorria sem autorização oficial, com alegações sobre cobrança indevida de ingressos e venda irregular de bebidas alcoólicas em áreas públicas.
A prefeitura acrescentou que a concessionária responsável pelo futuro parque firmou um acordo com a Associação dos Clubes Mantenedores da Área de Esportes e Lazer para assegurar uma gestão compartilhada dos novos campos destinados ao futebol de várzea que serão instalados no complexo.
Contexto das demolições
A demolição do Cruz da Esperança ocorre poucos meses após o desmonte do Aliança da Casa Verde, um famoso clube voltado ao futebol feminino e frequentado pela população LGBT+, também localizado na área esportiva do Campo de Marte.
Organizações culturais afirmam que essa situação faz parte de uma série contínua de intervenções por parte da Prefeitura em espaços culturais na cidade. Em março deste ano, ocorreu também a demolição do edifício que abrigava o Teatro de Contêiner, no centro paulista, após outra disputa judicial envolvendo ocupação por parte da Companhia Mugunzá de Teatro.
Com o desmantelamento do Cruz da Esperança, a comunidade se despede de um dos mais emblemáticos espaços dedicados ao samba e à cultura popular na Zona Norte paulista, enquanto a Prefeitura segue adiante com os planos para implementar o novo Parque Municipal Campo de Marte.

