Em um documento que solicita a autorização para o início da nova etapa da Operação Compliance Zero, a Polícia Federal traz à tona informações que envolvem Daniel Vorcaro e a aprovação da conhecida Emenda Master, proposta pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI). Vorcaro teria afirmado que a emenda “saiu exatamente como mandei”, enquanto seus contatos expressaram preocupações de que tal medida “sextuplicaria” os negócios do banco, resultando em uma possível “hecatombe” no mercado financeiro.
O relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, descreve Ciro Nogueira como o “destinatário central das vantagens indevidas” e um agente público que, em tese, teria utilizado seu mandato parlamentar para beneficiar interesses privados de Daniel Bueno Vorcaro. A proposta da Emenda Master foi atribuída a Flávio Bolsonaro (PL-RJ), escolhido por seu pai na prisão como candidato do clã para as eleições presidenciais de outubro.
A ação da Polícia Federal se deu uma semana após Flávio Bolsonaro declarar que o “governo Lula acabou”, na sequência de um acordo com Davi Alcolumbre (União-AP) para enterrar a CPMI do Master no Congresso, com o auxílio de Nogueira. Como contrapartida, essa aliança entre o Centrão e os bolsonaristas rejeitou a indicação de Jorge Messias ao STF e revogou o veto presidencial ao projeto de lei sobre Dosimetria.
Por meio desse grande acordo — “com o supremo, com tudo”, conforme diria Romero Jucá — Flávio Bolsonaro e seus aliados, incluindo a imprensa liberal, buscavam manter o escândalo do Caso Master fora das notícias durante o período eleitoral.
No entanto, em um giro irônico dos acontecimentos, a manobra não ocorreu conforme o planejado por Flávio Bolsonaro. O tema foi reavivado pelo “terrivelmente evangélico” André Mendonça, ex-colega de Ciro Nogueira no governo Jair Bolsonaro (PL), reacendendo uma crise na pré-campanha de Flávio Bolsonaro.
Mais que simples amizade
Na sua decisão, Mendonça afirma que as investigações realizadas pela Polícia Federal sobre um dos maiores escândalos financeiros do país indicam que a relação entre Nogueira e Vorcaro era “um arranjo funcional e instrumentalmente orientado para obtenção de benefícios mútuos, além de relações meramente amistosas”.
Essa observação faz referência a mensagens trocadas entre Vorcaro e sua ex-namorada, Martha Graeff. No conteúdo das mensagens, ele elogia Nogueira como “um dos meus grandes amigos de vida” ao celebrar que “Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro”, referindo-se à PEC 65/2023 apresentada por Nogueira para aumentar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante.
Conforme as investigações apontam, a proposta elaborada pelo “amigo” foi redigida pela equipe do Banco Master e enviada pelo sócio André Kruschewsky Lima a Vorcaro. O material foi entregue em um envelope endereçado diretamente ao senador em sua residência.
O caso que poderia levar à suposta “hecatombe” no mercado é apenas um entre vários envelopes contendo minutas de projetos de lei entregues ao senador piauiense visando proteger interesses do banqueiro.
O Mensalão do Master
Como contrapartida por liderar o lobby em favor de Vorcaro no Congresso, Ciro Nogueira seria um dos principais beneficiários do Mensalão do Master. Ele teria recebido mensalmente repasses na ordem de R$ 300 mil, totalizando aproximadamente R$ 18 milhões em propinas provenientes das transações identificadas como “parceria BRGD/CNLF”.
Esse esquema era operacionalizado por Felipe Cançado Vorcaro, primo do banqueiro preso na operação, juntamente com seu pai Oscar Vorcaro. A BRGD S.A. realizava os pagamentos à CNLF Empreendimentos Imobiliários. A sigla refere-se ao nome completo de Ciro Nogueira Lima Filho; contudo, ele é dirigido pelo irmão Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, atualmente sob tornozeleira eletrônica e proibido de se comunicar com o senador.
As investigações também revelaram que os repasses mensais destinados a Ciro Nogueira foram aumentados para R$ 500 mil em janeiro de 2025 durante a tramitação da Emenda Master, que acabou sendo arquivada.
Em conversas via mensagens, Felipe avisou seu primo sobre um pedido para elevar o valor em mais meio milhão: “Vai continuar os 500k ou pode ser os 300k?”, questionou ao banqueiro. Este deu carta branca ao parente para prosseguir com o pagamento.
Além disso, segundo as apurações, Daniel Vorcaro ainda disponibiliza gratuitamente um “imóvel de elevado padrão” a Ciro Nogueira por tempo indeterminado e custeia diversas despesas relacionadas a viagens internacionais dispendiosas.
Mendonça menciona na decisão que essas vantagens incluiram hospedagens no Park Hyatt New York — um hotel luxuoso cujas diárias podem ultrapassar R$ 22 mil.
O relator também apresenta diálogos onde Léo Serrano questiona Vorcaro se deveria continuar pagando as despesas relacionadas às viagens dos senadores Ciro e Flávia aos Estados Unidos.
“Só uma pergunta rápida… eh pros meninos continuarem pagando conta dos restaurantes do Ciro/Flávia até Sábado?”, escreve Serrano. “Sim. Depois leva meu cartão para St. Barths”, responde Vorcaro mencionando o famoso refúgio francês no Caribe.
Além disso, Ciro Nogueira recebeu 30% das ações da Green Investimentos S.A. por apenas R$ 1 milhão; segundo informações policiais, apesar desse valor irrisório em comparação aos cerca de R$ 13 milhões que as ações valiam no mercado.
Ciro Nogueira também se tornou alvo de busca e apreensão e tem restrições apenas quanto ao contato com outros investigados; André Mendonça negou qualquer necessidade imediata para colocar tornozeleira eletrônica nele ou aplicar prisão cautelar neste momento.
A explosão das revelações sobre Ciro Nogueira e sua conexão com uma organização criminosa operando entre Faria Lima e o Congresso Nacional gerou um silêncio notável vindo de Flávio Bolsonaro (PL).
Enquanto isso, durante a operação policial, Flávio utilizou suas redes sociais para defender uma redução na maioridade penal argumentando não suportar mais ver menores cometendo crimes graves sem punição devido à sua idade.
Entretanto, sua visão sobre crime organizado é seletiva; ele adota a máxima familiar segundo a qual “bandido bom é bandido morto”, exceto quando os criminosos estão ligados à Faria Lima ou ocupam cargos significativos nos governos da família ou são cogitados como candidatos à vice-presidência nas próximas eleições.

