O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), criticou as afirmações feitas por Flávio Bolsonaro (PL), seu aliado e postulante à Presidência da República, a respeito das urnas eletrônicas.
Em uma reunião com representantes diplomáticos, Flávio Bolsonaro reproduziu o discurso de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, questionando a integridade das urnas eletrônicas e do sistema eleitoral brasileiro em geral.
“[Confio nas urnas] foram elas que me elegeram. (…) É necessário discutir o futuro do país. Precisamos debater a direção a ser tomada por ambos os lados. É fundamental trazer isso à mesa. Do nosso lado, percebo o esforço da equipe do Flávio em elaborar um plano”, comentou Tarcísio de Freitas.
As declarações de Tarcísio foram feitas durante uma sabatina promovida pela CBN.
Flávio Bolsonaro promove desinformação sobre urnas em encontro com embaixadores
No evento “Debatendo o Brasil”, realizado em Brasília nesta terça-feira (21) com a presença de diplomatas de 42 países, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que se apresenta como pré-candidato à presidência, veiculou informações falsas acerca das urnas eletrônicas brasileiras, ligando-as à empresa venezuelana Smartmatic. Em sua fala, ele solicitou que as nações enviem “o maior número possível de observadores” para as eleições previstas para outubro, mencionando documentos da CIA sobre alegadas fraudes eleitorais na Venezuela. Essa abordagem repete a estratégia adotada por seu pai em um encontro semelhante com embaixadores em 2022, que resultou na inelegibilidade de Jair Bolsonaro pelo TSE.
O evento contou com a participação do corpo diplomático de países como Estados Unidos, Israel, Reino Unido, África do Sul, Austrália, Alemanha e Paraguai. Durante sua apresentação, Flávio Bolsonaro fez referência a documentos da CIA divulgados pela administração Trump na semana anterior, que levantavam suspeitas sobre o sistema eleitoral da Venezuela, tentando estabelecer uma conexão infundada com o sistema eleitoral brasileiro.
“Recentemente, houve uma denúncia do governo americano sobre suspeitas de fraudes em processos eleitorais eletrônicos, especialmente na Venezuela”, afirmou o senador. Ele continuou dizendo que “muitas das máquinas usadas nas eleições brasileiras têm origem na mesma empresa venezuelana”, referindo-se à Smartmatic, mencionada no documento da CIA como potencialmente envolvida em manipulações nos pleitos de 2010 e 2012 na Venezuela.
A partir dessa afirmação infundada, Flávio fez seu apelo principal ao público estrangeiro: “Não estou questionando o sistema de votação brasileiro; meu pedido é que todos os países possam enviar o maior número possível de observadores para nossas eleições e também especialistas em tecnologia para ajudar a garantir eleições mais seguras e transparentes no Brasil.”
Desmentidos do TSE e informações incorretas
A declaração feita por Flávio Bolsonaro carece de base factual. O TSE já negou publicamente qualquer ligação entre a Smartmatic e as urnas eletrônicas brasileiras em diversas ocasiões: 2017, 2020 e 2022, e novamente em julho de 2026 após serem questionados sobre as falas do senador. A nota oficial do tribunal é clara: “As afirmações que circulam nas redes sociais alegando que a Smartmatic fornece urnas eletrônicas ou softwares utilizados no Brasil são falsas. Todo o projeto das urnas eletrônicas brasileiras foi idealizado e é administrado exclusivamente pela Justiça Eleitoral.”
A Smartmatic teve envolvimento com o TSE apenas sob um contexto totalmente diferente do alegado pelo senador. Segundo a Justiça Eleitoral brasileira, a empresa firmou contratos apenas para serviços relacionados à conexão de dados e voz além do treinamento técnico. Ela não fabricou nem operou qualquer equipamento utilizado nas votações. Embora tenha participado da licitação para fabricação das urnas em 2020, acabou derrotada pela empresa Positivo.
O TSE ressalta ainda que seu sistema eletrônico de votação “utiliza métodos próprios e criptografados para comunicação e transmissão de dados”, sem qualquer conexão com redes públicas como a internet. Em mais de duas décadas, esse sistema foi “repetidamente testado e comprovadamente livre de manipulações”.
A estratégia de deslegitimação e o pedido por observadores
A situação ocorrida em Brasília remete diretamente a um episódio anterior relevante juridicamente. Em 2022, Jair Bolsonaro convocou embaixadores para uma reunião transmitida ao vivo onde questionou sem evidências o sistema eleitoral. O TSE considerou essa atitude como abuso de poder político ao propagar informações já refutadas publicamente, culminando na inelegibilidade do ex-presidente. Flávio citou esse incidente durante seu discurso, retratando seu pai como alguém que “apenas expressava suas preocupações” — uma interpretação que não foi aceita pelo tribunal eleitoral.
A contradição nas palavras de Flávio é evidente: enquanto afirmava “não estar questionando o sistema de votação brasileiro”, ele utilizou informações errôneas sobre as origens das urnas para justificar seu pedido por observadores com “conhecimento nessa tecnologia”. Sustentar que as urnas possuem uma origem duvidosa enquanto se diz não questionar o sistema é uma lógica insustentável.
A disseminação desse tipo de desinformação entre diplomatas internacionais parece ser uma tentativa deliberada de internacionalizar alegações infundadas sobre fraude eleitoral, prejudicando assim a imagem do Brasil no exterior e preparando terreno para futuras contestações dos resultados eleitorais caso as eleições não tenham os resultados esperados pelo grupo bolsonarista.
A tática utilizada é similar àquela que levou à inelegibilidade do pai: empregar um fórum diplomático para semear dúvidas sobre a validade do processo eleitoral utilizando informações já rechaçadas pelo TSE anteriormente. A diferença é que Flávio destacou explicitamente os desdobramentos enfrentados por seu pai antes de seguir adiante com sua abordagem repetitiva.

