No momento em que o Estádio Azteca se prepara para receber a abertura da Copa do Mundo de 2026, com o confronto entre México e África do Sul, um clamor de dor ressoa nas ruas da capital. Com o lema “Vamos Iluminar a Busca”, grupos de mães e familiares de pessoas desaparecidas, representando pelo menos dez estados do Brasil, realizaram protestos nesta quinta-feira (11). A meta é clara: aproveitar a visibilidade gerada pelo maior evento esportivo do mundo para romper o silêncio em torno de uma tragédia nacional que as autoridades tentam ocultar sob a celebração do futebol.
A diferença na Calzada de Tlalpan, principal via de acesso ao estádio, era impressionante. De um lado, uma multidão de torcedores vibrantes se dirigia à cerimônia de abertura; do outro, centenas de famílias traziam velas acesas, fotografias e cartazes impactantes. Um dos momentos mais significativos da manifestação foi quando os participantes lançaram “cascaritas” (as tradicionais peladas) na rua, lembrando à imprensa internacional e aos visitantes estrangeiros que seus entes queridos também tinham paixão pelo futebol e deveriam estar presentes. Uma das cartolinas mais comoventes exibia a mensagem: “Não joguem com a nossa dor”.
Além do apelo midiático, essa mobilização desempenha um papel educativo fundamental ao expor a grave crise humanitária que afeta o México hoje. O país registra atualmente o mais alarmante número mundial nesta questão: há mais de 134 mil pessoas oficialmente reconhecidas como desaparecidas, conforme dados do Registro Nacional de Personas Desaparecidas y No Localizadas (RNPDNO).
Para entender as causas estruturais desta crise que afeta profundamente a sociedade mexicana, especialistas e defensores dos direitos humanos indicam três elementos principais:
1 – A dinâmica dos cartéis e a violência relacionada ao narcotráfico
A impressionante estatística de desaparecimentos não é um fenômeno isolado; ela representa uma parte central da criminalidade organizada. Os desaparecimentos forçados tornaram-se uma ferramenta de terror utilizada pelos cartéis para eliminar concorrentes, esconder assassinatos em fossas clandestinas e abastecer mercados ilegais através do tráfico humano e do recrutamento forçado para atividades escravas ou para as fileiras do crime organizado. Regiões que sediarão jogos da Copa do Mundo, como Jalisco (Guadalajara) e Nuevo León (Monterrey), têm sido historicamente algumas das mais afetadas por essa realidade violenta.
2 – A omissão das instituições e a impunidade sistemática
A continuidade desse cenário trágico se dá pela quase total impunidade existente. Com mais de 95% dos crimes violentos não solucionados, o sistema judiciário mexicano transfere à sociedade civil a responsabilidade pelas investigações. Os coletivos formados majoritariamente por mulheres, conhecidas internacionalmente como “madres buscadoras”, denunciam a falta de ação estatal na aceleração dos processos forenses para identificar milhares de corpos encontrados. Diante da inércia governamental, essas mães utilizam pás e picaretas para explorar os terrenos em busca de valas comuns.
3. A geopolítica da imagem e o cerceio policial
A tensão política em torno deste grande evento esportivo resultou em um reforço significativo no aparato de segurança nas ruas. Para preservar a imagem do país anfitrião nas transmissões globais, a Secretaria de Segurança Cidadã da Cidade do México mobilizou um expressivo número de policiais antimotim armados com escudos e barreiras concretas, impedindo o avanço dos manifestantes na Avenida Tlalpan. Essa estratégia criou um bloqueio visual que afastou o protesto do fluxo principal de torcedores.
Ainda assim, mesmo diante das barreiras policiais, o impacto político da mobilização foi notório. Organizações como a Anistia Internacional monitoraram os atos e apoiaram o manifesto das famílias que traduzem o sentimento coletivo de um país ferido pelos horrores invisíveis durante a festividade da FIFA: “Não pode haver Mundial enquanto o México esquece seu povo. Nossos filhos não merecem ser esquecidos para que outros celebrem.” Enquanto os jogos acontecem nos modernos gramados, milhares de lares mexicanos permanecem congelados no tempo esperando pela única resposta essencial: onde estão eles?

