O pequeno fruto roxo, rico em nutrientes e ameaçado de extinção, ganha destaque em um novo cenário. Originário da palmeira juçara (Euterpe edulis), uma espécie nativa que simboliza a Mata Atlântica, esse fruto passa a ser reconhecido não apenas como parte da biodiversidade, mas como um elemento fundamental na gastronomia sustentável do Brasil.
A juçara é frequentemente associada ao açaí amazônico devido à sua aparência e valor nutricional. No entanto, sua extração não resulta na morte da planta, ao contrário do palmito. Dessa forma, a colheita do fruto permite que a árvore permaneça viva e continue desempenhando seu papel ecológico, alimentando mais de 60 espécies de animais como tucanos e jacutingas, que ajudam a dispersar suas sementes.
Na culinária, a polpa da juçara se destaca por seu sabor terroso e menos adocicado em comparação ao açaí. Com uma textura sedosa e uma cor púrpura vibrante, graças à elevada concentração de antocianinas — potentes antioxidantes que combatem o envelhecimento precoce das células — o fruto é considerado um superalimento. Pesquisas indicam que a polpa da juçara pode conter até quatro vezes mais antioxidantes do que o açaí convencional.
Desde pratos tradicionais como bolos e sorvetes até receitas mais sofisticadas envolvendo peixes e bebidas, a juçara proporciona uma cor intensa e um sabor único às preparações. O barista Léo Oliva, que tem experimentado com essa fruta em drinks para venda, comenta: “Com muitas antocianinas e taninos, a juçara me lembra vinho. Tentei incorporar essa referência em uma soda de juçara com uma acidez semelhante à de um espumante”.
Iniciativa voltada para a juçara
No litoral paranaense, o projeto intitulado Paisagens Multifuncionais da Grande Reserva Mata Atlântica busca fortalecer a produção agroflorestal e agroecológica na APA de Guaraqueçaba. Realizado pela Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) e apoiado pelo Programa Biodiversidade Litoral do Paraná (BLP), esta iniciativa visa promover o uso sustentável da juçara na Grande Reserva da Mata Atlântica (GRMA). As atividades também ressaltam a importância dessa espécie na conservação do bioma, cuja área preservada representa pouco mais de 7% da cobertura original, com grande parte localizada no litoral paranaense.
Rodrigo Condé, coordenador de projetos da SPVS, afirma: “O fruto da juçara tem potencial para se tornar o principal produto da bioeconomia no litoral paranaense. Sua versatilidade de uso e disponibilidade podem gerar renda para pequenos agricultores quando cultivado em sistemas agroflorestais, reduzindo assim a pressão sobre as plantações que hoje representam sua maior ameaça.”
Em Antonina (PR), o reconhecimento da juçara também está estimulando inovações nos negócios locais. Maristela Mendes, fundadora da Bananina — produtora conhecida por suas balas tradicionais de banana com diversos sabores — lançou recentemente uma nova versão combinando banana com juçara. Ela compartilha: “Foi desafiador aceitar o convite da SPVS para desenvolver essa bala. Nosso objetivo foi valorizar a juçara típica da região, que traz sabor e cor roxa ao produto final, agregando valor e apoiando os pequenos agricultores familiares.”
Phablo Bittencourt, representante do Instituto Juçara — parceiro da SPVS na região desde 2012 — explica: “Ao considerar trabalhar exclusivamente com o fruto, não só mantemos as plantas vivas como também podemos explorá-las por muitos anos após a frutificação. Isso gera uma renda regular sem riscos associados à colheita.”

