Representantes do setor agropecuário e empresários têm expressado críticas discretas à abordagem adotada por Flávio Bolsonaro durante a turbulência comercial com os Estados Unidos. Eles consideram que o pré-candidato do PL à Presidência se concentrou mais em disputas ideológicas do que em questões econômicas fundamentais para o agronegócio.
A recente viagem do senador a Washington, onde participou de uma audiência pública organizada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR)—responsável pela investigação que deu origem ao aumento das tarifas—foi vista como “contraproducente”.
A opinião predominante é de que Flávio deixou passar uma oportunidade significativa para se posicionar como líder em pautas relevantes para seus eleitores, o que poderia ter fortalecido sua relação com um dos setores historicamente alinhados ao bolsonarismo.
Os empresários ligados ao agronegócio argumentam que a iniciativa misturou questões políticas com um debate essencialmente comercial. Além disso, acreditam que as possibilidades de alterar uma decisão fundamentada nos interesses econômicos dos EUA eram escassas.
O desconforto gerado pelo discurso do senador em solo americano reforça a ideia de que Flávio tratou uma negociação que exigia um enfoque técnico e econômico como um palanque ideológico.
Pautas negligenciadas e o impacto no setor
A crítica mais incisiva entre as lideranças do agronegócio vai além da viagem. O foco principal é que, apesar de ser senador, Flávio Bolsonaro pouco se envolveu em questões prioritárias para o setor rural, como a renegociação das dívidas agrícolas, um tema que mobiliza tanto produtores quanto membros da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).
Para os integrantes do setor, as isenções concedidas no tarifaço, que atenuaram os efeitos imediatos sobre o agronegócio, evidenciam ainda mais a chance desperdiçada: ao invés de promover uma agenda econômica significativa para seus apoiadores, o senador escolheu um caminho que o afastou das demandas reais do segmento.
A avaliação geral é de que Flávio Bolsonaro está perdendo influência junto ao agronegócio, um dos pilares fundamentais da base bolsonarista.
Contexto da crise comercial e tarifaço
Essas críticas ocorrem em meio a um cenário de tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos. Durante o governo de Donald Trump, foi imposta uma tarifa de 25% sobre produtos importados; no entanto, diversas categorias cruciais para o agronegócio brasileiro foram isentas dessa medida: carne bovina, pescados, café e alguns tipos de madeira não foram incluídos na sobretaxa, minimizando assim o impacto imediato sobre grande parte do setor.
Para algumas lideranças agropecuárias, essas isenções também refletem interesses do governo Trump: há uma percepção de que a Casa Branca evitou taxar produtos cuja alta nos preços poderia provocar descontentamento entre os consumidores americanos, como café e carne. Essa análise coloca em dúvida qualquer narrativa brasileira de sucesso diplomático na questão.

