Pelé sempre teve um papel fundamental como promotor do futebol na África. Ele fez várias visitas a diferentes países do continente, tanto durante sua carreira no Santos quanto após se retirar dos campos. Em uma dessas ocasiões, em 1977, ele afirmou que uma seleção africana conquistaria a Copa do Mundo masculina antes do ano 2000, embora essa previsão não tenha se concretizado dentro do período previsto.
Mesmo assim, sua conexão com o continente se manteve viva até seus últimos dias. Sua última postagem nas redes sociais foi uma homenagem à seleção de Marrocos, reconhecendo seu ótimo desempenho na Copa do Mundo realizada no Catar. “Não poderia deixar de parabenizar Marrocos pela campanha incrível. É maravilhoso ver a África brilhar”, escreveu Pelé.
Wycliffe W. Njororai Simiyu, professor e acadêmico queniano com especialização em Cinesiologia, Educação Física e Ciência do Esporte na Stephen F. Austin State University, no Texas, acredita que a previsão de Pelé pode ter sido otimista para a época, mas continha uma base válida. “Embora a famosa previsão de Pelé sobre uma vitória africana na Copa do Mundo até 2000 tenha sido prematura, os fundamentos por trás dessa intuição estavam corretos. Com a ampliação para um torneio de 48 seleções, a África terá um recorde de 10 representantes em 2026. Isso não é apenas uma questão numérica; diz respeito à ‘maturidade tática’ que finalmente diminuiu a disparidade em relação à Europa e América do Sul”, declarou em entrevista via e-mail à revista Fórum.
O professor destacou três aspectos que ele considera essenciais para que a previsão de Pelé se realize. O primeiro é fisiológico: o novo formato exige que as equipes joguem oito partidas para conquistar o título, tornando a profundidade do elenco e a recuperação física mais importantes do que nunca. O segundo aspecto é administrativo — um problema histórico enfrentado pelo futebol africano. “Conflitos sobre bônus e questões administrativas têm prejudicado as campanhas das seleções africanas. As federações que conseguirem garantir uma logística eficaz fora de campo proporcionarão aos jogadores a clareza mental necessária para avançar no torneio”, comentou ele. O terceiro ponto é técnico: segundo Simiyu, em jogos eliminatórios acirrados contra adversários fortes, “a taxa de conversão é crucial. Uma defesa sólida deve ser acompanhada por eficiência inabalável nos contra-ataques e finalizações quando surgirem oportunidades”.
O “Efeito Marrocos” e o avanço psicológico
Simiyu acredita que a trajetória de Marrocos até as semifinais da Copa do Mundo no Catar “quebrou um teto psicológico” que limitava as seleções africanas por décadas. “Historicamente, essas equipes chegavam ao torneio com uma mentalidade subconsciente de ‘feliz por estar aqui’. Marrocos demonstrou que com uma defesa robusta e comprometimento total, qualquer adversário pode ser neutralizado”, avaliou.
Esse impacto já pode ser observado nos preparativos das outras nove seleções africanas para o torneio de 2026. “Equipes como Senegal e Costa do Marfim deixaram de lado a tentativa de superar os times europeus em partidas desordenadas e estão agora adotando defesas estruturadas e estratégias rigorosamente ensaiadas”, observou.
A transformação psicológica impulsionada pelos êxitos de Marrocos em 2022 eleva as expectativas das seleções africanas. A pressão é diferente agora; elas não veem mais uma eliminação nas oitavas como um resultado satisfatório. Estão se preparando com o firme objetivo de permanecer na competição até julho”, analisou o docente. Seu maior desafio será sustentar essa ambição ao longo de um torneio longo e exigente. “A energia emocional necessária para competir como azarão disciplinado pode levar à exaustão mental. Se uma equipe enfrentar dificuldades na fase de grupos, manter essa disciplina tática sem entrar em pânico será o fator decisivo entre os candidatos ao título e os demais participantes”, concluiu Simiyu.

