A atmosfera nos corredores da campanha do PL para a Presidência da República se deteriorou de maneira irreversível. A pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que havia experimentado um notável crescimento no começo do ano, agora enfrenta uma queda acentuada nas pesquisas de intenção de voto. Interlocutores já se referem ao que consideram um “naufrágio” da candidatura do 01, levando o clã extremista a adotar um “modo desespero”. Informações obtidas indicam que uma ordem para conter essa crise partiu diretamente de Jair Bolsonaro, que, mesmo sob prisão domiciliar após ser condenado por tentativa de golpe de Estado, decidiu que sua esposa, Michelle Bolsonaro, deveria se envolver ativamente na campanha do enteado para tentar recuperar os votos perdidos.
A intervenção de Jair é vista como uma ação emergencial em meio à crise, mas esbarra em um histórico complicado de tensões familiares. O relacionamento entre Flávio e sua madrasta sempre foi descrito por aliados como conturbado, repleto de episódios vexatórios e ofensas mútuas. Nos bastidores familiares, Flávio frequentemente tentava minimizar a relevância política de Michelle, referindo-se a ela de maneira depreciativa como uma simples “agregada” do clã. Por outro lado, a ex-primeira-dama nunca escondeu sua insatisfação com as atitudes do enteado e chegou a zombar em particular dos sucessivos fracassos políticos e eleitorais que culminaram em sua atual situação.
Queda nas pesquisas: da igualdade ao isolamento
A inquietação no comitê bolsonarista é justificada pelos números alarmantes. Alguns meses atrás, Flávio Bolsonaro estava em um patamar competitivo, igualando-se ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em pesquisas divulgadas pelo instituto AtlasIntel no início do ano, o senador alcançou um empate técnico no segundo turno, registrando 46,3% contra 46,2% de Lula, com algumas simulações até colocando o nome da extrema direita ligeiramente à frente.
No entanto, o contexto mudou drasticamente após uma série de escândalos. Levantamentos recentes apontam para uma queda acentuada nas intenções de voto. Na última rodada da AtlasIntel, Flávio perdeu seis pontos percentuais no cenário do segundo turno, estabelecendo-se em 41,8%, enquanto Lula subiu para 48,9%, criando uma diferença que supera a margem de erro e consolidando o isolamento do candidato do PL. Além disso, a pesquisa realizada pela Genial/Quaest corroborou essa tendência negativa ao mostrar Lula dez pontos à frente já no primeiro turno, com resultados de 39% a 29% para Flávio. Um dado alarmante para os estrategistas do senador na Quaest foi a diminuição entre os eleitores independentes – aqueles que não são identificados nem como lulistas nem bolsonaristas – onde ele caiu de 31% para 24%, enquanto Lula avançou. Esse declínio é atribuído diretamente a uma série de escândalos que geraram forte rejeição ao senador, rotulando-o como corrupto e traidor.
Trilogia de escândalos que afundou o 01
O ponto crucial da crise atual foi a revelação sobre o chamado caso Master/Vorcaro. Mensagens publicadas revelaram que Flávio Bolsonaro pressionou e exigiu repasses financeiros substanciais do banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. Os áudios vazados mostraram que Vorcaro estava preso pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero devido a suspeitas de fraudes bilionárias e havia prometido injetar R$ 134 milhões (dos quais pelo menos R$ 61 milhões foram efetivamente liberados) para financiar o filme Dark Horse, uma cinebiografia elogiosa sobre Jair Bolsonaro. Na pesquisa mais recente da Quaest, 60% dos entrevistados afirmaram que as conversas levantam suspeitas e 65% consideraram que Flávio cometeu um erro grave ao aceitar dinheiro desse banqueiro criminoso.
Além desse escândalo financeiro, houve também repercussões negativas pela recente viagem aos EUA. Flávio viajou a Washington com o objetivo declarado de solicitar sanções econômicas e políticas contra o Brasil junto a parlamentares aliados de Donald Trump e organismos internacionais sob alegações de perseguição política interna. Esse episódio foi amplamente criticado por opositores como um ato traiçoeiro contra o país, argumentando que o candidato do PL preferiu sabotar a economia nacional em vez de enfrentar suas próprias responsabilidades legais.
Por último, sua equipe tentou implementar uma manobra legal que reforçou sua imagem autoritária. Diante dos dados internos indicando uma queda nas intenções de voto, Flávio acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedindo censura e suspensão da divulgação da pesquisa AtlasIntel/Bloomberg sob a alegação de perguntas tendenciosas. Embora o presidente da corte tenha concedido uma liminar temporária, houve uma resposta política imediata. A oposição e setores da sociedade civil classificaram essa ação como um “tiro no pé” e um ato claro de censura eleitoral, resultando em mais atenção ao escândalo envolvendo os áudios sobre o Banco Master.
Estratégia de resgate e papel de Michelle
Diante do colapso iminente da candidatura, toda a estrutura bolsonarista está apostando suas fichas no capital político representado por Michelle Bolsonaro. Tanto Jair Bolsonaro quanto seus aliados veem na ex-primeira-dama a única figura capaz de reconectar a direita com importantes segmentos eleitorais que se afastaram de Flávio após os recentes escândalos.
A estratégia busca focar em três segmentos específicos onde houve um aumento considerável na rejeição ao senador nas últimas semanas. O primeiro alvo é o eleitorado evangélico; nesse nicho Michelle tem forte influência devido aos seus discursos impactantes e apelo religioso. Em segundo lugar estão as mulheres – um grupo historicamente cético em relação ao tom agressivo adotado pela ala masculina do clã e desconfiadas dos problemas legais enfrentados pelo parlamentar. Por fim, há uma tentativa clara do partido em utilizar a imagem positiva da ex-primeira-dama para recuperar apoio entre as classes mais baixas e os brasileiros mais pobres – setores onde sua imagem assistencialista ainda possui algum recall eleitoral significativo.
Embora haja uma ordem clara por parte Jair para implementar esse socorro imediato à candidatura, ainda falta um cronograma definido. Informações indicam que as agendas públicas conjuntas não devem ocorrer durante a Copa do Mundo [que termina em 19 de julho], momento em que as atenções estarão voltadas para o evento esportivo. Essa pausa forçada proporcionará à equipe tempo necessário para tentar estabelecer um armistício público entre madrasta e enteado na tentativa de criar uma imagem familiar unida diante das dificuldades internas enfrentadas.

