Um vinho brasileiro, elaborado com uma uva europeia ancestral pouco conhecida no país, acaba de atrair a atenção do público. No campo da enologia, poucas variedades têm uma tradição tão rica quanto a Savagnin Blanc, que não deve ser confundida com a popular Sauvignon Blanc. Essa uva é considerada uma das principais raízes da viticultura na Europa, tendo sobrevivido a pragas, guerras e alterações climáticas, consolidando-se como um verdadeiro tesouro da Europa Central, embora permaneça relativamente obscura no Brasil.
Pesquisas de perfil de DNA realizadas por geneticistas e ampelógrafos revelaram que a Savagnin Blanc apresenta um genoma altamente variável, o que possibilitou várias mutações ao longo de milênios. Além disso, escavações arqueológicas descobriram sementes de videiras com aproximadamente 900 anos na Europa Central que são geneticamente muito semelhantes às Savagnin cultivadas nos dias atuais.
Documentos históricos indicam que a variedade original (então denominada Traminer) surgiu na aldeia tirolesa de Tramin, atualmente no norte da Itália, entre os séculos X e XI. Séculos depois, durante o século XVIII, a instabilidade genética dessa uva levou à criação de clones com casca rosada. Uma mutação específica resultou no nascimento do Gewürztraminer, conhecido por seu aroma intenso dentro deste grupo.
No início dos anos 2000, análises genéticas identificaram a Savagnin Blanc como uma progenitora direta de castas renomadas como Sauvignon Blanc, Chenin Blanc, Silvaner e Grüner Veltliner. Ela também tem estreita relação genética com a Pinot Noir.
Estilos Clássico e Oxidativo
A Savagnin Blanc é conhecida por sua acidez natural elevada e marcante no paladar. O tratamento escolhido pelo enólogo pode resultar em dois estilos distintos de vinho. Quando vinificada de maneira tradicional (sem exposição ao oxigênio), ela produz brancos secos e vibrantes com corpo médio a encorpado. Os aromas típicos incluem notas cítricas, maçã verde, flores brancas, lichia e um toque mineral salino bem pronunciado.
A segunda abordagem é o estilo oxidativo. Na região onde é originária, essa uva é a única permitida para fazer o Vin Jaune (Vinho Amarelo), que passa mais de seis anos envelhecendo em barris sem vedação adequada ao ar. Isso gera um véu de leveduras semelhante ao processo do Jerez espanhol. O resultado é um vinho complexo e não fortificado com aromas profundos de nozes, especiarias e curry.
Uma Raridade no Brasil
Enquanto na Europa a Savagnin é considerada uma matriarca respeitada em grandes vinhedos, aqui no Brasil sua presença é quase inexistente. A maioria dos vinhos brancos finos elaborados no país está concentrada em variedades como Chardonnay, Sauvignon Blanc e Moscatos.
A Savagnin Blanc necessita de climas mais frescos ou amenos em altitudes elevadas para manter sua acidez sem apresentar níveis excessivos de açúcar. Atualmente, apenas um produtor brasileiro está explorando essa casta: a RAR Vinhos. Eles produzem micro-lotes experimentais desta variedade em seus vinhedos situados nas altitudes frias de Campos de Cima da Serra (Vacaria – RS). Nesses terroirs frescos, a Savagnin amadurece lentamente, resultando em um vinho brasileiro com coloração palha e reflexos esverdeados, destacando-se pela acidez marcante e frescor surpreendente para aqueles que buscam algo diferente.
Um exemplo notável é o Collezione Savagnin Blanc, que recebeu medalha de ouro na 13ª edição do Brazil Wine Challenge 2026 — um dos mais prestigiados concursos de vinhos da América Latina. O evento foi realizado pela Associação Brasileira de Enologia (ABE) entre os dias 16 e 19 de junho.
A competição anual contou com 1.127 amostras oriundas de 19 países, batendo recordes em sua história. Um júri composto por especialistas nacionais e internacionais avaliou os vinhos apresentados por países como Brasil, Chile, Argentina, Uruguai, Portugal, França, Espanha, Estados Unidos e Bolívia.
“Receber uma medalha de ouro em uma competição tão significativa nos enche de orgulho. Esse reconhecimento valida nosso empenho dedicado em todas as fases do processo produtivo e reafirma nossa busca contínua por qualidade, inovação e autenticidade,” comentou Sergio Martins Barbosa, presidente executivo da RAR Agro & Indústria.

