A festividade de São João representa uma rica fusão de fé, tradições e gastronomia. Para entender a magnitude dessa celebração, é essencial observar atentamente a mesa e refletir sobre o que ela oferece. Como afirmava Luís da Câmara Cascudo, renomado folclorista e etnógrafo brasileiro, a alimentação vai além de uma simples necessidade física; trata-se de um reflexo das permanências culturais da humanidade.
Durante o período junino, experimentar os sabores se transforma em um ato que transcende a mera nutrição. É uma forma de conexão com a terra e com o sagrado, além de ser um reconhecimento da identidade moldada por influências globais ao longo do tempo.
Para compreender o simbolismo da fogueira de São João, é necessário considerar sua origem. A tradição católica narra que Isabel, prima de Maria, acendeu uma grande fogueira no alto de uma montanha para anunciar o nascimento de João Batista. Contudo, antropólogos identificam nessa chama resquícios de rituais mais antigos. Na Europa pagã, junho celebrava o solstício de verão, quando fogueiras eram acesas em agradecimento pelas boas colheitas e em oração pela fertilidade do solo.
Com a chegada dos colonizadores portugueses ao Brasil, a festa ganhou novas características. Junho passou a ser associado à colheita do milho, um grão que já era fundamental para as comunidades indígenas e que se tornou central nas celebrações juninas.
Estudiosos da alimentação, como Raul Lody, ressaltam que as receitas típicas desse período evidenciam o hibridismo cultural do Brasil: misturas entre o milho nativo americano, açúcar e ovos introduzidos pelos portugueses, além do leite de coco e técnicas culinárias africanas.
O Folclore na Mesa
No seu livro clássico “História da Alimentação no Brasil”, Câmara Cascudo descreve como a cozinha tradicional rural, especialmente a sertaneja, se organiza com um respeito quase sagrado pelos alimentos. Durante as festividades de São João, esse respeito assume contornos supersticiosos.
O folclorista documentou diversas simpatias nas quais a comida é vista como um elo para o futuro. Uma das histórias mais conhecidas diz que se uma jovem deixasse um prato de comida na noite anterior a São João (de 23 para 24 de junho), o espírito do seu futuro marido viria se servir dele e revelaria seu rosto em um sonho. “O tabu dissolveu-se no costume, mas o costume é lei inderrogável”, escreveu Cascudo sobre a força das tradições alimentares.
Outro aspecto importante do folclore alimentar é que qualquer alimento que cair ao chão durante essa noite sagrada pertence às almas ou aos santos e não deve ser recolhido sem uma oração. O milho assado na brasa da fogueira também carrega superstições; acredita-se que comer diretamente da espiga sob o calor do fogo traria abundância durante todo o ano e proteção contra a fome — tema amplamente analisado pelo médico e geógrafo Josué de Castro em seus estudos sobre a dieta no sertão.
Pamonha, Canjica e Identidade
No cotidiano, os alimentos têm como principal função nutrir; no entanto, durante São João, eles desempenham um papel crucial na construção das relações sociais. Antropólogos contemporâneos observam que preparar comidas à base de milho (como cuscuz, mungunzá, pamonha e canjica) envolve um esforço comunitário conhecido como mutirão familiar em torno da alimentação. Enquanto alguns colhem as espigas, outros descascam-nas; os mais fortes ralavam o milho enquanto as matriarcas cuidavam do ponto certo no fogo feito com lenha.
Nos dias atuais, muitas pessoas perderam essa prática coletiva em torno do preparo dos alimentos. No entanto, se você deseja resgatar essa tradição mesmo que apenas nesta data especial, confira uma receita simples que simplifica parte dos processos tradicionais.
Pamonha para fazer em casa
Ingredientes
- 12 espigas de milho
- 50 mililitros de leite
- 6 colheres de sopa de açúcar
- 1 pitada de sal
Modo de Preparo
Corte as extremidades das espigas e retire as palhas para reservá-las. Remova a barba do milho e rale as espigas. Cozinhe as palhas em água fervente até ficarem macias; depois escorra e reserve tanto as palhas quanto a água utilizada.
No liquidificador, bata o milho ralado até obter uma mistura homogênea e transfira para uma tigela grande. Acrescente o leite, açúcar e sal à mistura e mexa bem.
Dobre as palhas formando trouxinhas e recheie-as com a mistura preparada. Amarre cada trouxinha com barbante ou pedaços das próprias palhas.
Aproveite a água onde foram cozidas as palhas para cozinhar as pamonhas por cerca de 1 hora em água fervente; certifique-se de que todas fiquem submersas.
Após cozidas, retire as pamonhas da água e deixe escorrer completamente antes de servir quente ou à temperatura ambiente.

